
Desde Tudo Sobre Minha Mãe, Pedro Almodóvar vem se consolidando como o maior diretor espanhol vivo, de lá para cá filmou os já clássicos Fale com Ela e Volver. Em seu último trabalho ele retoma uma abordagem mais de acordo com seus filmes anteriores ao o excelente A Flor do Meu Segredo, produção em que o diretor praticamente se reinventou. Nesta fase os roteiros eram mais ligados ao melodrama clássico protagonizados por mulheres de meia idade e homossexuais, mesmo assim Abraços Partidos (Los Abrazos Rotos) não deixa de ser uma boa película, com certa profundidade e boas doses de humor negro.
Acredito que o diretor tem todo o direito de fazer um filme menos pretensioso, pois sua última década foi fantástica, digna de ser comparado a cineastas como Fassbiner e Carlos Saura, nos anos de 99 a 2009, Almodóvar realizou 4 filmes, sendo três deles inesquecíveis, nada mau para um cineasta sempre teve seu nome ligado a trabalhos voltados principalmente para o público gay.
No final da projeção de Abraços Partidos cheguei a seguinte conclusão: No filme parece que o Almodóvar de Tudo Sobre Minha Mãe e Volver resolveu tirar férias, deixando o Almodóvar de "De Salto Alto" e "Mulheres à Beira de Um Ataque de Nervos" tomar as rédeas da produção". Já que "Abraços..." é um filme mais modesto, leve, com trama rocambolesca e estética kitsch de acordo com o estilo de Kika e Atá-me. Como em outras produções o cineasta transita entre vários estilos, ficando impossível distinguir a qual gênero pertence a produção.
No longa Harry Caine, roteirista e escritor cego, revê (sem trocadilho) sua trajetória e sua relação com Lena, personagem de Penélope Cruz, quando um jovem diretor vai a sua casa fazer uma proposta para escrever o roteiro de um novo filme, sobre um pai que abandona um filho. Este jovem guarda segredos de fatos mal resolvidos do passado de Harry, dentre esses seu amor por Lena e um filme dirigido por ele que foi finalizado sem o seu consentimento. A partir daí muitas reviravoltas dignas de novela das oito (com qualidade infinitamente superior) acontecem. A trama investe na imprevisibilidade dos acontecimentos, deixando o expectador navegar por águas desconhecidas, ficando sempre a mercê de reviravoltas improváveis.
Penélope Cruz novamente esta impecável, com o “time” certo que personagem exige. Em "Abraços..."ela mostra mais uma vez como voltar a trabalhar com Almodóvar faz bem para sua carreira, pois além de linda demonstrou uma grande versatilidade, já que interpreta dois personagens durante o longa com grande diferença entre ambos.
Tecnicamente o filme tem a cara de Almodóvar, tanto no que diz respeito a fotografia (exageradamente vermelha), quanto direção de arte e uso da trilha sonora e principalmente o domínio irretocável dos atores em cena. Mas a história conta com alguns tropeços, como algumas cenas em que o dramalhão excede a barreira do aceitável ou quando tramas menores servem apenas como forma de enrolar o expectador, como por exemplo a overdose do filho da melhor amiga de Harry Cane que não contribui em nada para o filme.As vezes o diretor tenta de alguma forma mostrar uma complexidade maior que o roteiro realmente tem.
No final das contas a trama funciona muito bem como entretenimento, não deixando de ser um filme de arte. Em sua primeira exibição em Cannes, foi muito bem recebido, mesmo assim não conseguiu se livrar completamente das críticas, principalmente na Espanha.
Particularmente acho que a produção tem o selo de qualidade do diretor, porém se trata de uma obra assumidamente menor, as vezes da impressão de que todas as reviravoltas não se justificam tanto, mas ainda assim é um bom filme.
Saiba mais sobre o filme Abraços Partidos.
Por Bruno Marques (meunomeebruno@bol.com.br)
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