Argo

Publicada em 22/11/2012 às 00:00

Comente


Argo
 
Ao nos acomodarmos para assistir a um filme, todos os preconceitos devem ser abandonados. Essa é uma máxima defendida por muitos críticos, afinal, o filme sempre tem o direito de tentar provar que é uma boa realização. Então abandone todos os seus preconceitos antes de sentar ante a projeção de Argo, sejam eles com relação às más atuações de Ben Affleck ou com relação ao medo de se deparar com mais uma daquelas manifestações de patriotismo estadunidense.
 
Baseado no artigo “Escape from Tehran”, de Joshuah Bearman, o roteirista Chris Terrio e o (também) diretor Ben Affleck criaram uma ficção baseada em fatos reais que, por vezes, beira o documentário. Um bom documentário, aquele de natureza imparcial. Intercalando cenas reais (arquivos) com tomadas baseadas nesses vídeos, o realizador concede ainda mais veracidade à trama. Mostrando ambos os lados da moeda (reação dos EUA e declarações e manifestações dos iranianos), o autor se isenta de qualquer juízo moral e relata um drama sem qualquer forma de pieguice.
 
Deixando o caso “Canadian Caper” em segundo plano, por vezes somos conduzidos a uma Hollywood que satiricamente (e eia, aqui, um alívio cômico muito inteligente) espelha o atual mundo dos filmes, onde os personagens do maquiador John Chambers (John Goodman) e do produtor Lester Siegel (Alan Arkin) são figuras remanescentes de uma Hollywood corrompida e decrépita. A escolha do nome “Argo” sugere uma irônica metalinguagem: se em 1980 o roteiro de “Argo” foi utilizado como pano de fundo para o resgate de seis americanos do Teerã, por que não usar essa missão como pano de fundo de uma crítica à Hollywood ou à indústria do cinema como um todo?
 
Praticamente sem trilha sonora e com uma montagem esplêndida, a narrativa, que começa um pouco lenta – afinal, a ambientação é necessária –, paulatinamente se transforma em uma das produções mais tensas dos últimos tempos. É quase impossível não sentir a apreensão e o medo dos personagens centrais e, mesmo quando já se encontram fora do solo iraniano, ainda ficamos irrequietos.
 
Argo é a quinta experiência de Affleck atrás das câmeras, o seu terceiro longa-metragem e a sua melhor contribuição para a sétima arte até o presente momento. Uma obra política que perde, atualmente, apenas, para as produções de George Clooney e mostra que a imparcialidade é possível. De uma sensibilidade incomum, Argo é um projeto muito mais profundo que um mero relato histórico.
 
É um dedo na ferida.
 
 
por Laísa Trojaike

Comentários (1)

Deixar um comentário


Lucas comentou: Fantástico... Muito bom esse filme. Da mesma forma que retrata um lado obsessivo dos EUA, mostra também a fragilidade e o sofrimento encarado pelos refugiados... 24/07/2014 | Responder