CRÍTICAS


Código Desconhecido




Algumas pessoas nascem com o dom de enxergar além do que a nossa retina é capaz de captar, conseguindo por exemplo extrair de um fato que pode ser considerado banal para alguns, um panorama do mundo em que vivemos. Sem dúvida o diretor austríaco Michel Haneke é um desses “iluminados”. Código Desconhecido (Code Inconnu: Récit Incomplet de Divers Voyages) , realizado em 2000, mostra  como a intolerância social e racial fazem parte do cotidiano dos franceses, sendo tão comum aos seus  habitantes que faz com que a xenofobia se torne invisível aos olhos dos habitantes da “cidade luz”.

Trata-se do primeiro filme do diretor realizado na França e conta com uma narrativa completamente desconstruída, dividida em três histórias paralelas que já na segunda sequência do filme entram em colisão. Diferente de obras menos autorais em que o clímax é o "último suspiro" da película, "Código..." já começa em ritmo frenético quando Jean, um jovem branco francês, caminha por uma calçada e sem o menor motivo aparente joga um pedaço de papel encima de uma imigrante que pede esmola. Esta agressão faz com que o negro Amadou, professor de música que passava pelo local, intervenha pela dignidade da senhora, fazendo com que as diferenças raciais por parte de imigrantes, negros e europeus-nativos sejam aflorados. Quase sempre estes sentimentos são  escondidos  por traz de uma falsa indiferença. A confusão termina quando a polícia  chega para fazer com que a ordem passe a ser respeitada novamente, no fim Amadou é preso, Jean é solto e a imigrante é deportada ( a justiça nem sempre é justa). Haneke representa nesta  discussão de rua, o quanto o problema é grave, pois a intolerância racial não esta presente somente na forma como agem civis mais também na postura de autoridades representantes do estado.

Considero este um dos mais lindos plano-sequência que já assisti, pois a forma como toda a Mise-en-Scène é coreografada em um espaço enorme (se passa em dois quarteirões) é algo fabuloso.Segundo declaração do próprio diretor esta cena realmente ocorreu, tendo sido presenciada por ele quando  procurava um tema para o filme que viria ser o roteiro de Código Desconhecido.

Em uma outra cena, aparentemente banal, um grupo de amigos conversam sobre a guerra da Bósnia, já que um dos integrantes da mesa havia voltado recentemente da zona de conflito, onde havia trabalhado como fotógrafo. Em determinado momento o homem dispara a bombástica afirmação de que o cotidiano em uma guerra é mais tolerante que numa cidade como Paris, dando assim a proporção exata da forma hostil que convivem a população em sociedades multiculturais como a França.

 Em alguns momentos Código Desconhecido lembra a obra-prima de Robert Bresson L´Argent de 1983, além de contar com um formato similar ao dos chamados  multi-plots como Magnolia, Short-Cuts e Rio 40° de Nelson Pereira dos Santos. Mas a diferença é que Haneke não se prende a explicações, abrindo ao expectador a possibilidade de uma interpretação mais pessoal sobre o filme.

Juliette Binoche atua como protagonista junto a um elenco de ótimos atores desconhecidos. Ela inclusive foi a responsável pela ida de Michel Haneke para a França, pois manifestou a vontade de trabalhar com o cineasta após assistir ao também impressionante Violência Gratuita. Ambos voltariam a trabalhar mais uma vez em Caché cinco anos depois.
 
Código Desconhecido, assim como todos os filmes do cineasta nada mais é que uma crônica sobre a violência, não só física, mas também uma violência psicológica. Haneke constantemente tem a clara intenção de inquietar o expectador, sendo sua marca pessoal mais evidente, tentando de alguma forma fazer com que nossos olhos entrem em sintonia com os seus, fazendo o público perceber o quanto a tensão e o medo são a tônica das metrópoles contemporâneas , e estas a cada dia que passa se transformam em barris de pólvora cada vez maiores.

Por Bruno Marques   (meunomeebruno@bol.com.br)


Nota:

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