Crítica: Depois da Terra

Publicada em 16/07/2013 às 18:36

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É notavelmente difícil renovar a temática “fim do mundo” dentro da cinematografia. Tal é problema da inovação que, desde as últimas duas décadas do século XX, vemos Hollywood cair na mesma: ou a humanidade luta contra uma ameaça assombrosa à sua sobrevivência ou restam aos protagonistas dar continuidade à ruína civilizatória no pós-apocalipse; o “Depois da Terra” segue o segundo caminho. Neste, contudo, as circunstâncias que levam ao evento armagedônico também geram a evolução dos homens rumo ao espaço, onde buscam alternativas para a vida através da colonização d’outro planeta. Os mil anos que nele passam, todavia, os fazem perder a configuração biológica original – embora fisicamente iguais ao que eram no passado, os terrestres acabam se acostumando com a nova gravidade, quantidade de oxigênio, luz, clima, geologia. Tornam-se criaturas consequentes da adaptação e alienígenas à velha Terra, que, por meio de insurgências naturais, os cuspiu em primeiro lugar.
 
A trama aqui reproduzida (e originalmente narrada, talvez com mais habilidade, pelo filho do Will Smith), somada com o fato de Manoj “Night” Shyamalan (dos ofegantes “O Sexto Sentido” e “Sinais”) ser o responsável pela direção e participar do roteiro, de imediato implica o envolvimento de questões filosóficas e/ou metafísicas no filme. O indiano, entretanto, parece não aproveitar muito a história, elaborando uma projeção de uma hora e quarenta minutos que se enfoca na luta pela sobrevivência e superação de anseios e temores da principal personagem. 
 
E para que as luzes fossem concedidas gratuitamente ao jovem ator, transpõe-se, de modo excessivamente sublime, as ideologias que o material escrito implicava, na mesma intensidade conferindo-se profundidade e importância ao longa. O entretenimento ao espectador chega, mas não é proporcional à expectativa cultivada no sci-fi, o qual busca resgatar a thrilling experience da década de 80 e simultaneamente fazê-la de fundo ao Jaden. 
Por isso, alerta-se a quem viu os trailers e esperou ver Will novamente em ação: o filho aparece mais que o pai.
 
 
DEPOIS DA TERRA
Passando o bastão
 
 
Além da futurística odisseia estelar culminar no encontro de Nova Prime, o planetoide onde a reconstrução da sociedade se iniciaria, deparou-se também com uma raça de alienígenas. Eles, de suas naves, liberaram as Ursas, seres gigantescos e brutais, guiados por feromônios liberados pelos humanos quando sentem medo. O elementar efeito foi uma chacina em grande escala, que nem o avançado exército pôde conter; com exceção de um soldado, o Cypher Raige (Sr. Smith) e sua divisão de Fantasmas capazes de conter os indicadores hormonais de pavor.
 
Tempos depois do fim dos conflitos, Raige, então general, retorna ao acolhimento de sua família, porém com ela, principalmente com o filho, Kitai, não é nada acolhedor. O pequeno, entretanto, luta com todas as forças para ser tão corajoso e atlético quanto o cultuado familiar, mantendo a seriedade requerida de um marine prestativo até mesmo dentro de casa, pressão e expectativa evidenciadas com esforço pelo Jaden. E a interpretação do menino, que confere a si mesmo a obrigação de camuflar seus despreparos de cadete e impor-se como combatente ultimado (analogia inevitável, e até proposital, com a vida dos atores e as ambições cinematográficas do júnior), prossegue dividindo opiniões – defensoras ou da passividade insossa ou da relevância e convencimento passados pela atuação.
 
Simultaneamente longe do extraordinário e do frustrante, o intérprete teen realmente é consagrado protagonista quando lhe é dado o encargo de sustentar dois terços da metragem. Ele o faz como pode, manobrando seu Kitai numa enorme sequência de ação e marasmo, cujo cenário é a própria Terra abandonada.
 
Por catastrófico erro mecânico, uma espaçonave (de design bem semelhante ao Blackbird ultrassônico), que carregava militares, os Raiges e uma Ursa adormecida para treinamento, cai na atmosfera há muito deixada, ceifando a vida de todos menos três dos tripulantes. A lei de Murphy então se agrava: para sair da hostil superfície, onde “tudo evoluiu para matar humanos”, o cadete precisava abrir caminho até o comunicador capaz de clamar por resgate. A confiança e o bastão de ranger cedidos pelo pai são a deixa para o começo da aventura, típica de um Schwarzenegger ou Bruce Willis.
 
O retorno à década de 80, no entanto, resigna-se às referências (principalmente ao “Predador”, de 87), estando o suspense instigante e os ferozes e incríveis confrontos em falta – ausência criativa que progride para seu absoluto sintético na direção de arte. Embora as vestimentas, arquitetura e tecnologias distintivas da cultura futurista sejam bem retratadas, a veracidade da antipatia e extravagância da natureza torna-se defasada ao serem usados cenários desgastados de floresta que, mesmo não tendo sido aproveitados em outros filmes, nos deixa com essa impressão graças à estética comum e genérica. O sublinhar da excentricidade do mundo evolvido em estado de completo naturalismo poderia ser acentuado com gravações em locais inusitados, tais como algumas selvas asiáticas ou africanas, fazendo serventia dessas locações com tomadas aéreas ou noturnas, erguendo paralelo com a fantasia de “Avatar” ao trazer paisagens excepcionais sem qualquer CGI.
 
Atravessando a mata, o pretendente a ser ranger é levado ao máximo de suas capacidades físicas e psicológicas; e o pior: sozinho. Por ser deixado na solidão, fitado inúmeras vezes por golpes de câmeras, dos mais plácidos aos frenéticos, as falhas ou fraquezas na atuação do garoto acabam sendo transparentes, agravados pelo predominante silêncio que concentra os olhares do público nos traços e feições dele: o que é ótimo, podendo beirar ao angustiante, uma vez se tratando daqueles com maior prática. Shyamalan nunca abdicou a essa técnica de filmagem e, pelo contrário, sempre a usou de maneira farta – mais visivelmente nas obscuras cenas do porão em “Sinais” e na casa assombrada do “Sexto Sentido”. Smith Jr., porém, ainda não esbanja equivalentes artifícios performáticos e de carisma aos de Mel Gibson ou da criança prodígio (e agora sumida) Haley J. Osment, limitando a eficiência dos rompimentos na trilha sonora e dos pouco mutáveis, mas competentes, solos de piano, creditados a James Newton Howard.
 
O compositor acompanha a ascensão, em antífrase composta por muitas quedas, do soldado frente à problemática de lidar com o assombroso e violento bioma, lançando tentativas de sobreviver e, concomitantemente, impressionar o progenitor, que à distância o observa. Nesse contexto, em que o controle dos medos é diretamente necessário para continuar vivendo, o diretor considera o tema da pusilanimidade como obstáculo ao triunfo, porém nada faz para acrescentar alguma novidade a ele (nada que não seja sintetizado no impactante slogan, “O perigo é real, o medo é uma escolha”), frequentemente tratado – e ultimamente, vale notar, com maiores proporções na trilogia The Dark Knight.
 
O trabalho que o cineasta empenha para inserir discussões abrangentes, com o que habitualmente se preocupa, é mínimo e apagado, situando “Depois da Terra” numa linha que não tange a relevância intelectual possivelmente visada e nem a agitadora e intrigante ação para um fim de tarde. Aos que procuram este ou aquele tipo de obra, conseguintemente, também falha em agradar cem por cento, permitindo-os sair da sala com somente os cinquenta de satisfação que os fará responder “legal” à clássica e costumeira questão do que acharam a respeito do longa. Já sobre a sua finalidade, certamente sairão com a sensação de terem assistido para testemunhar os instantes nos quais William Smith, sentado no que sobrou do veículo espacial caído, aposentado dos combates que veterano o coroaram, passou seu anoso bastão de ranger, ou o seu cetro, para Jaden Christopher Syre.
 
Por Murillo JAF

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