Crítica: Guerra Mundial Z

Publicada em 26/07/2013 às 14:27

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O enfrentamento entre grandes nações – separadas por metas dessemelhantes, que até suprimem os direitos humanos, consequência da crescente globalização e a disputa econômica, política e militar por ela gerada – mudou o curso da correnteza que foram os anos 1900-1990. Após vermos (muitos não diretamente) a colisão de gigantes pátrios que culminaram no lançamento da primeira bomba nuclear contra população civil, quase presenciamos o choque de duas forças antagônicas em nível destrutivo Defcon 1, fio de seda por pouco não rompido na Cuba de 62.
 
O trazer à tona das páginas do livro de história, não abundantemente gravado em nossas reminiscências, é espontâneo quando nos é anunciado o título, icônico e carrancudo, Guerra Mundial. E quando vinculou-se na mídia, pela primeira vez, que Marc Forster adaptaria às telonas estória que acrescia Z a esse título, a controversa, sustentadora da falta de nexo e prudência de um filme inserindo zumbis no circunspecto tema (tratado em premiados O Resgate do Soldado Ryan, Cartas de Iwo Jima, A Conquista da Honra, entre tantos outros), foi levantada.
 
Mas a obra de Forster blindou-se como um Panzer às austeras contraindicações. Apagou-se o que poderia aludir às chacinas e crimes terríveis do passado e à matanza propagada por alianças e eixos de tal modo que, dos vocábulos do nome, somente predomina o “Mundial”: perpetuado pela enormidade de uma crise epidêmica, que expande e dissolve o terror do gênero e preenche, com bastante suspense e ação, cento e vinte minutos de experiência cinematográfica. 
 
GUERRA MUNDIAL Z
Apocalipse Zombie com PG-13
 
Gerry Lane, por Brad Pitt, um ex-empregado das Nações Unidas, costumava realizar investigações em áreas de risco no planeta; bom serviçal que era, percebeu ter deixado a família em segundo plano, decidindo-se então por largar o trabalho. E como alegria de protagonista dura pouco (nesse caso uns seiscentos segundos), assim que acompanhava as filhas e mulher (ótimo desempenho artístico de Mireille Enos) no carro, um grupo gigantesco de humanoides raivosos com habilidades sobrenaturais, desejosos de morder quem vissem pela frente, iniciam ataque à cidade, em consequência de um vírus que exponencialmente, e em pouquíssimo tempo, se espalhava.
 
A partir daí é infactível não relembrar o Eu Sou A Lenda lançado em 2007 (igualmente baseado numa publicação literária), em cujos flashbacks vislumbramos a luta do pai para salvar os entes queridos no meio da bagunça zumbi - há inclusive cenas no automóvel bem parecidas com a sequência inicial do “Z”. Porém, a personagem de Pitt parece ser um tanto mais sortuda que o cientista Robert Neville, de Will Smith, sendo a ela dada a chance de tirar a família do círculo de fogo e mantê-la a salvo pelo governo norte-americano. A condição para que o bem-estar continue, todavia, é dura e obriga Gerry a reanimar suas capacidades investigativas e sair viajando com uma equipe de SEALS para descobrir o marco zero da pandemia.
 
Tamanha odisseia, portanto, situa a oportunidade de mostrar o quão geograficamente ilimitada torna-se a proliferação das criaturas. Efeitos tridimensionais cuidam da tarefa de mostrar metrópoles e lugarejos, nos mais diversos continentes, tomados de zeeks (são os mostrengos assim chamados) intrépidos e instintivos, preparados para fazer de tudo para satisfazer sua fome, inclusive morrer, o que não é um grande problema. Sua alta resistência física e medonha aparência, contudo, não se devem à volta do mundo dos mortos; a ciência dá conta da explicação e a produção do longa, nada obstante, não perde a ocasião de mostrar os seres com o requerido look mórbido. Àqueles que tem mais foco nas filmagens é dispensado o gráfico de computador, gerando interpretações engraçadas de tão histriônicas, que podem calhar de comparação a certos mortos-vivos despropositadamente pândegas dos filmes pioneiros neste tipo de terror.
 
Quanto aos fãs raiz do zombie apocalype, será natural o desagrado com a falta de recheio sanguinolento nesse bolo, o que, por outro lado, desenvolve o alcance da audiência com a venda de um produto leve, que conseguiu receber PG-13 (para maiores de treze anos) nas terras do Tio Sam, ao repor a fidelidade na retratação das vítimas da doença e do estilo pelo qual ela é transmitida com dosagens intensas de explosões, correria e quebra-quebra – para se ter uma ideia, Lane, que  escassamente usa armas de fogo, se vira com unhas e dentes (valendo-se da força física, machados e aparelhos cortantes em geral) por toda a trama contra os inimigos parcialmente invulneráveis.
 
Incansável, a pesquisa internacional da patologia e seus misteriosos atributos chega ao momento da estandardização; por onde quer que vá, o pobre Mr. Pitt é cercado pelas bestas-feras e, por determinado motivo, tem que partir para outra base ou cidade, pois lhe sucede outro objetivo que assegura a continuidade da missão. Logo, tende a um videogame conforme se padroniza, dividindo o roteiro em “fases” que se repetem.
 
Sem embargo, não chega a perder os diálogos e se afundar na ação, mantendo o ritmo intrigante e afastando surpresas frustrantes até o correr dos créditos finais. A honra ao mérito vai para Marco Beltrami, compositor, e para a Muse, banda de rock alternativo com inserções eletrônicas, que cancelou certas características do estilo para os temas sonoros da trilha – apropriada, gera sensações excruciantes, mas não alcança as perfeitamente horríveis guitarras de “Extermínio” um e dois. O som em poucos momentos é cessado, o principal deles na “última fase”: a qual brinca com a temática “no man’s land”, explora os movimentos semicômicos dos mortos-vivos e refere-se ao segundo número da franquia “Alien” e ao próprio Eu Sou A Lenda. As menções às duas grandes guerras também estão presentes hora ou outra, relativas às temidas explosões atômicas ou às tragédias sociais ocasionados pela falta de protecionismo e aparelhagem estatal judaica.
 
A mais-valia de World War Z (no original) não fixa-se, contudo, no resgate histórico (este bem menor que outros aspectos da trama), mas em mostrar realmente a que veio – evidenciar ação e espetáculo visual, a primeira no destaque necessário para  evitar a decepção dos espectadores exigentes, que não perderão o fio da meada deste fascinante armageddon; nem com a inesperada explicação do final e, em antítese, com o desfecho clichê.
 
 
Por Murillo JAF

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Vilma Machado comentou: ´todos os filmes são bons ,mas a gente sempre tem um que gosta mais , cidade dos ossos,é bom , 04/09/2013 | Responder