Crítica: O Homem de Aço

Publicada em 22/07/2013 às 18:06

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Os Vingadores, de Joss Whedon, quando lançado há pouco mais de um ano, representou, em termos financeiros, duplo significado, para duas das maiores produtoras hollywoodianas. À Walt Disney, feliz por ter emplacado o filme no pódium das colossais bilheterias, oportunidade de explorar os heróis por mais n anos. À Warner Bros., relevante aprendizado a fim de poder explorar os seus heróis, advindos dos quadrinhos da DC Comics, por mais n anos. A divergência semântica, contudo, residia no fato de que a Warner só podia enxergar seu pote de ouro num distante horizonte, a longo prazo. Ela não possuía um universo de heróis perfeitamente interligado, como fez a adversária, nem planos bem delineados para o futuro das adaptações dos quadrinhos. Somente de algo os estúdios dispunham, ou melhor, de alguém. E o codinome do às na manga era Man of Steel. 
 
O filme, ainda em produção, constituía a chance de abrir portas para a aparição dos futuros componentes da Liga da Justiça, a super-equipe da DC que, durante bastante tempo, foi massivamente mais conhecida que os próprios Vingadores, perpetuada seja por desenhos animados, hqs ou jogos eletrônicos; chance para levantar um panteão de personagens heroicos, para realizar o sonho dos aficionados em assistir horas de ação nas telas envolvendo o cavaleiro das trevas, o Caçador de Marte, a Mulher Maravilha, entre outros. Por conseguinte, tinha o estúdio que lidar com outro paradigma: retratar tais figuras de modo tão fantástico quanto soam suas alcunhas, auxiliados pelas modernas e incríveis técnicas de aplicação de efeitos especiais; ou tentar trazer aspectos realistas à espetacular ficção, concedendo a ela credibilidade, inserindo-a num roteiro inteligente, com aspirações filosóficas
 
Christopher Nolan, cineasta inglês, há algum tempo encontrava-se numa encruzilhada parecida. A trilogia The Dark Knight, dirigida por ele, resultou em memoráveis e consagrados, inclusive por prêmios da Academia, longas-metragens, embora retratando o homem-morcego Batman num contexto isolacionista quanto à visão reunidora e universal agora assumida. Nolan ficou com a segunda opção; e, graças ao seu sucesso, a cúpula da Warner ficou com a de Nolan. 
 
O lançamento dessa sexta-feira, dia 12 de Julho, é onde afluem as apostas e volumosa dialética nos três parágrafos anteriores sintetizada. Consiste numa obra de qualidade e coerência, em todos os níveis da produção e sobretudo o roteiro. Obra que satisfaz os ensejos executivos de encher os cofres (são hoje cerca de 620 milhões de dólares, excepcional começo de franquia) e do público em assistir explosões, tiros, socos e exposição gratuita de poderes sobrenaturais inseridos numa história convincente, com atores convincentes e visual hiper convincente; hiper não, super. Afinal, estamos tratando do Superm... digo... Homem de Aço.
 
O HOMEM DE AÇO
 
Alguns dos fãs e antigos leitores recentemente conflagraram críticas à decisão do estúdio por demorar na realização dos filmes, preferindo que iniciassem, sem mais delongas, as filmagens da Liga de super-humanos e anunciassem os atores que ela protagonizariam. A moderação, no entanto, dá frutos – visíveis do começo ao fim, mas principalmente no começo – de O Homem de Aço. Logo nos quinze-vinte minutos que inauguram a projeção, nos deparamos com eletrizante sequência nos moldes estilísticos do diretor dos últimos “Batman” (o bem-sucedido cineasta acima citado), que aborda os últimos dias de um planeta moribundo. Abusando dos cortes de cena, que graduam rumo a diversos clímax em “efeito bola de neve”, a sequência impacta pelo uso de diálogos muito bem escritos (os quais se prolongam pelo resto da trama e se desviam do clichê) e pelo constante e arrasador som de fundo, criador de uma atmosfera dramática, suspense que deixa o espectador estonteado.
 
A trilha sonora, adequada e perfeita em muitos momentos, é assinada por Hans Zimmer – aí outra semelhança com os trabalhos de Nolan. O compositor não chega à fascinante anarquia instrumental que predomina em O Cavaleiro das Trevas Ressurge, mas investe em batidas de tambor, violão e solos de piano para reanalisar e reinventar os antigos e icônicos temas de John Williams. Mudar a clássica música, tocar no que há décadas permanecia intocado ou minimamente transformado foi, por Zimmer, comparado com reescrever a nona sinfonia de Beethoven. E ele consegue? Durante a conclusão da obra, temos um harmônico encontro entre som e imagem, quando ouvimos as notas que mais se parecem com as de Williams, porém se mantém inusitadas e emocionantes. Após assistir essa condução para os créditos finais, certamente o espectador responderá que sim. 
 
Aliás, conquanto neguem os produtores e ele não esteja diretamente presente na trama, o discurso de contraposição entre o velho e o novo segue líder tema dos tópicos de qualquer conversa, formal ou informal, sobre Man of Steel. É também impossível comparar o protagonista Henry Cavill, primeiro britânico no papel do ídolo estadunidense, com Christopher Reeve, ator que viveu o Super na quadrilogia do século passado. 
 
Fato é que Cavill pode ser comparado com o falecido ator, e é melhor, em termos de atuação, que qualquer outro a assumir o uniforme – que aqui é tratado como uma ceroula (a explicação é plausível), tecido inteligente proveniente do arruinado mundo Krypton. De lá também provém Clark Kent, ou Kal-El, que não se denomina Superman – o “S” do peito quer dizer “esperança” e é o estandarte da família de Kal. Não chegando a conhece-la, ele torna-se filho de Jor-El e Jonathan Kent, quem o adotou, brilhantemente interpretados por Russel Crowe e Kevin Costner.
 
E os grandes nomes não se retém aos cartazes – de um lado observamos um pai que concede sua vida para a sobrevivência do filho, lutando para que ele tenha a chance de forjar o próprio futuro; de outro contemplamos um Sr. Kent que esconde a verdadeira identidade do pequeno Clark, convencendo-se de que a Terra não está preparada para ver alguém superior, detentor de poderes com inimaginável extensão
 
Para essa problemática, os roteiristas, direto da franquia do homem-morcego, David Goyer e Chris Nolan, junto ao diretor Zack Snyder (de 300, Watchmen e Sucker Punch – Mundo Surreal), procuram referências no Livro Sagrado, e a ele inserem claras alusões. O tema principal, por sua vez, possui raízes bíblicas. No Krypton em colapso, os recém-nascidos, gerados artificialmente, possuíam destinos pré-estabelecidos na civilização. A sociedade que beirava às castas havia se acostumado, por eras, a se organizar em estamentos ratificados pela ciência, pelo ultra desenvolvimento numa genética determinista que escolhia as propriedades de todos os cidadãos. O general Zod, de Michael Shannon, e seus seguidores personificam a seleção tecnológica e artificial de objetivos de vida. Marcados para serem o melhor da força bélica, criados para crerem nos fortes ideais de entusiasmo físico e do cultivo extremista do bom militarismo, essa alta infantaria de ares pretorianos, em sua vontade de promover o crescimento da potência de Krypton à qualquer custo, acaba caracterizando seu declínio, simultaneamente quebrando os laços amigáveis antes firmes entre o general e El. 
 
Já Jonathan, sem ter informação do projeto do genitor biológico em libertar o bebê dos círculos viciosos da declinante organização social, ao pedir que Kal não interferisse nos rumos da população terrena, nem no dos que próximos dele conviviam, dá prosseguimento ao propósito de arbítrio dado a ele por Jor-El, impedindo, de mesmo modo, sua intervenção no futuro de outros, como os colegas de escola que o provocavam (em típicas cenas de “bullying”) e sobre os quais se negou a lançar sua ira. 
 
Esteticamente semelhante à bat-saga, finalizada ano passado com “Ressurge”, desde a fotografia à edição e direção de arte, o filme não só inicia o universo DC nas telonas, mas corrobora com o que já havia sido criado. E se os longas de Nolan foram conhecidos por atuações de ótimo padrão, este não sai perdendo. Além de Crowe, Costner e Shannon, definitivamente mais notáveis no elenco, Amy Adams, a Lois Lane, Diane Lane, Martha Kent, a mãe adotiva, e até Ayelet Zurer, a mãe verdadeira, que tão pouco aparece, são destaques de atuação – apesar do par romântico Amy/Henry não ter sido corretamente conectado e a “química” entre atores estar dividindo opiniões. Bem assim, a germânica Antje Traue não decepciona, vivificando a poderosa e atraente Faora, de cabelos curtos e batom avermelhado, cega discípula de Zod.
 
Tal estética, que em muito se aproxima da realidade (as imagens chegam a ser retratos crus, sem muitas modificações por CG, de todos os panoramas, dos urbanos aos alienígenas – díspar de 300 ou Sucker Punch, do mesmo Zack Snyder), também se volta ao extraordinário, em especial nas batalhas finais de clima apocalíptico. Sem embargo, o trunfo do Homem de Aço nelas não se localiza; tais sequências foram exaustivamente esquadrinhadas no terceiro Transformers e nos Vingadores, estando este filme diferente por não se enfocar na peleja envolvendo o grupo de heróis ou humanos e os invasores, mas nos cósmicos confrontos mano-a-mano entre protagonista e antagonista, que possuem clara influência de Snyder quando na brutalidade e grandiosidade, visando deixar o público do IMAX, 3D ou das salas de alta definição digital em estado pasmo.
 
A proeminência do longa está no drama, na história, nos modos utilizados para atualizar o Super-Homem à atual geração, mantendo o divo norte-americano, trajado com as cores da bandeira, adequado às exigências dos espectadores contemporâneos e fiel a certos objetivos da criação original, por Jerry Siegel e Joe Shuster na década de 30. 
 
Enquanto o cavaleiro negro da DC/Warner foi adaptado como o herói que todos podiam ser, os mesmos roteiristas definem Superman como a convergência das esperanças, sentimento coletivo que ele estampa no peito, como a idealização e a veracidade simultâneas do audaz escoteiro dos EUA. Demonstra-se Clark não pelo seu propósito de ser fisicamente invulnerável, porém pelo de surpreender as expectativas vigentes em sua época. Origina-se, portanto, um novo homem: cujo aço está no poder de avançar sobre o conformismo e predestinação da sociedade, erigindo assim seu singular desígnio.
 
 
Por Murillo JAF

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