Crítica: Percy Jackson e o Mar de Monstros

Publicada em 04/09/2013 às 16:20

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A cultura atual é repleta de mitologias – e a maioria delas há, no máximo cem anos, foram criadas. Nossos Odisseus e Aquiles hoje vestem capa, voam, tem super-veículos e poderes que a pujança do mais forte idealiza. Visto tais atributos, e destacando a exceção de algumas visões abrangentes quanto ao psicossocial dada à alguns personagens, a conclusão elementar é que o mínimo de mudanças traça o imaginário da população pós-moderna ao da ultra antiga, que, entretida com as histórias cantadas através montanhas e colunas da Hélade, recitada do rítmico lirismo de Homero ou Hesíodo, fascinada com o sobrenatural dos “Trabalhos” e dos “Dias”, construía a figura de monstros, homens e entes superiores, desafiantes das leis da física e irrestritos em perpetuar a soberania do transcendental e do onírico. 
 
Heresia, portanto, é afirmar que mito consiste em crença esquecida: de mesmo modo à ascensão dos americanos Clarks, Bruces e Tonys, ressurgem os gregos divos, afilhados pelos clássicos poetas e pelos contemporâneos escritores adotados, porém submissos, face à necessidade literária e histórica da adaptação, à nova realidade, à sua estética, à sua ética, à vontade dos novos bardos em abordar e agradar o fecundo, em termos financeiros de arrecadação, público infanto-juvenil (prova disso é J. K. Rowling). 
 
É possível cogitar racionalmente julgamentos, bem mais abrangentes que dois parágrafos, sobre o renascimento da epopeia e da odisseia míticas na obra de Richard Riordan; contudo, incrível e ironicamente, não conseguem suas transposições oficiais ao cinema captar e aproveitar a abrangência, nem trabalhar coerentemente a diversão num roteiro além-sessão-da-tarde. 
 
Filme teen não é filme insosso, e também heresia à arte seria o admitir. Novamente a ironia, o herege da vez é quem adapta o revisado mito, o cineasta Thor (quanta ironia) Freudenthal de Diário de Um Banana e Hotel Bom Pra Cachorro, desenvolvendo a sequência e a jornada do jovem semideus Percy, agora levada à desconhecida, “posseidônica”, imensidão do oceano fantástico.
 
PERCY JACKSON E O MAR DE MONSTROS
Projeto de Ilíada
 
Há um problema durante a projeção deste segundo Percy Jackson – é a falta de drama. Não que todos procurem por um neo-Hitchcock com fundo musical de Zimmer ao entrar na sala de cinema, ou que o primeiro filme da franquia não seja água com açúcar. Entretanto, nele havia ainda o prazer da descoberta, do qual nenhum espectador se cansa (embora o tenha já explorado as sagas do Harry Potter, Crepúsculo e lá vai fenômeno das livrarias e bilheterias), da surpresa na colisão entre um universo incrível, mitológico, discrepante do palpável e do concreto, com a realidade, o mundo familiar e ordinário de um estudante que nem sabia ser semideus. É clichê (já é clichê dizer que isso é clichê), porém é a fórmula do sucesso, que envolve inclusive quem não quer mais ser envolvido. E, considerando a intangibilidade da crítica e público pelo “Ladrão de Raios”, conquanto utilizasse (inabilmente, daí a falha) da formulazinha afortunada, realizar uma sequência a qual retire muitos dos elementos artísticos, cenários, personagens e intérpretes presentes na primeira história, conseguindo melhorá-la, requer (no mínimo) aptidão e (no satisfatório) destreza no trabalho dos seus idealizadores. 
 
Freudenthal (e time) não possui os requisitos (nem a confiança, a esperança plena dos executivos), a produção final com qualidade superante do aceitável, é desprovida. Proporcional. Cada Olimpo tem a divindade que merece – permita-se novamente a ironia de Tália.
 
E falando em Tália, não da musa agora, a película dela começa contando: uma menina descendente de Zeus, que às portas do Acampamento Meio-Sangue (onde são treinados e guardados os semideuses) é assassinada, mas obtém do pai divino a misericórdia e a recompensa. Ele numa árvore mística a transforma, provida de um campo de força protetor que o local defende às forças malignas. Todavia, anos após, mediante o adoecimento da garota-planta, o acampamento torna-se alvo de ataques terríveis, criaturas assombrosas e matadoras, que a maioria leiga nos poemas clássicos nem pensava a existência. Por conseguinte obviedade, vai caber a Percy achar o artefato capaz de ressuscitar a moça – ou de qualquer outra coisa não-vivente. 
 
O intento não geraria conflito, claro, se não houvesse obstáculos quase intransponíveis a frente, dentre seres apavorantes – o que seriam das releituras lendárias sem eles – fiel, ou hiperbolicamente, (re) criados em CG, e deuses dispostos ou inimizados em oferecer ajuda. A figuração deles, por sua vez, reflete a fundamentada desconfiança dos investidores sobre a fertilidade pecuniária da metragem; ao passo que, no título inicial da franquia, preenchiam o renomado elenco Uma Thurman, Sean Bean, Kevin McKidd e Pierce Brosnan, talvez pelo fato de Chris Columbus – responsável pelos dois primeiros Potters, “A Pedra Filosofal” e “A Câmara Secreta” – a direção/roteiro ter ocupado, neste os atores calçada da fama despareceram, os olimpianos celestes por alguns deles personificados não deram as caras, o centauro de Brosnan foi substituído e, justificadamente, mantido o orçamento “baixo” de noventa milhões – ao menos suprime-se o impacto pela troca abrupta na atuação. Sustentando-a, bem assim, retorna às telas o trio dos protagonistas, por Logan Lerman, Brandon T. Jackson e a bela Alexandra Daddario, cujas desventuras compartilhadas pagam parte do entretenimento, e introduz-se a jovem atriz Leven Rambin como a intrépida (no adjetivo caprichado, infelizmente, entenda-se artificial e paradigmática, com o script coesa) filha de Ares, Clarisse La Rue.
 
Por outro lado, reparando às reclamações dos fãs, é adicionada mais fidelidade ao livro de Riordan, a começar pelo cabelo loiro de Annabeth (aos tietes foi grave o erro em mostrar a semideusa morena), da Daddario. No entanto, o uso de parcas uma hora e trinta para evoluir a narração torna-a pequena, insuficiente ao ponto do frustrante, dependendo das expectativas de quem assiste; logo, ao leitor fica o aviso de não em excesso as cultivar, mas que espere tirar uma bagatela de risadas. No meio-pouco-tempo, há a possibilidade de se divertir com as sequências de ação, porém certeza com certas piadas; e o ponto vai para Dionísio (Stanley Tucci), deus do vinho, que aos cinco minutos de abertura, num torneio esportivo dos meio-sangues (proposital semelhança com os festivais lugar-comum de escolas norte-americanas), solta funcionais gracinhas – a do Deus cristão é memorável.
 
Acaso haja empolgação com as cenas de estreia, seguramente, nem que em pequenos por centos, se esvairá. Às crianças será ótimo, tem graça, é colorido, e à faixa pré-adolescente de onze a treze anos, o didatismo anti-bullying (sim, ele existe até na mitológica dimensão), exposto com a ignorância adolescente do acampamento em relação a um moço ciclope, cumpre o serviço. Aliás, tanto é didático que, àqueles patronos do excesso de explicação nos filmes de Christopher Nolan, ou da não-linearidade cinematográfica, fazem rever seus conceitos de ilustração gratuita. Podem então afastar-se do “Mar de Monstros”, exceto se, de mãos dadas, levem o filho ou o netinho. Lamentavelmente, acredita-se que simplismo é impreterível quando o infanto-juvenil é público-alvo. A relação aí já não é proporcional, e ao Tártaro quem o diga – não porque assevero, mas porque para lá ruma a fama de um filme mediano. Para que a nota não prolongue a tragédia grega que virou o fim da presente análise, média também ela será. E que garantido seja meu lugar no Elísio!
 
 
Crítica de Murillo JAF
@Mujaf_Oliver

Comentários (1)

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Carlos comentou: Cara, esse texto (crítica) sobre o filem Percy Jackson é horroroso de se ler... Qt pedantismo!! Texto chato. Arrastado.

Q pena...
05/11/2014 | Responder