Disparos

Publicada em 23/11/2012 às 23:41

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Disparos
 
Lembrando um pouco A Idade do Ouro, de Luis BuñuelDisparos começa de fato com uma cena do reino animal. Um alerta para mostrar que o filme não é só mais um relato, uma história baseada em fatos reais que se utiliza de meios midiáticos para atingir um grande público como uma fofoca que almeja alcançar um nível de abrangência descomunal. Aqui, a história de Henrique é só uma grande epígrafe para a ideia (comumente atribuída a Thomas Hobbes) de que o homem é o lobo do homem.
 
Com uma fotografia que lembra constantemente uma rua mal iluminada, com aquela luz amarela, mas que, no contexto do filme, engenhosamente inclinada para o vermelho, o filme é 99% rodado à noite, na Lapa (local onde ocorreu o caso real). Mais interessante ainda é como o filme consegue parecer atemporal e não correspondente a lugar algum, parecendo genérico (no bom sentido) o suficiente para corroborar a ideia de que se trata de uma amostra da natureza humana, não só mais um caso aleatório.
 
Embora algumas atuações, como a do Gustavo Machado ou da Cristina Amadeo, por vezes não convençam, são incapazes de desestabilizar o filme que se apoia em diálogos tensos e inteligentes, aliados a uma montagem excepcional que fazem de uma trama simples um emaranhado de pequenas narrativas conectadas entre si. Desde a primeira cena somos enganados. Nada do que se pense poderá antecipar, com plena certeza, o que está por vir. A diretora e roteirista Juliana Reis cria personagens de caráter obscuro e duvidoso. Qualquer um pode ser vilão ou mocinho e, independente da personalidade, a visão do espectador sobre esses personagens pode mudar a qualquer instante. Aqui vale um destaque para Caco Ciocler, que estabelece em Disparos o que talvez seja a melhor atuação de sua carreira, contendo em olhares mais do que em expressões e gestos, toda a ironia que seu papel exigiu.
 
Disparos é o meio termo entre uma superprodução e um filme marginal, garantindo o melhor de ambos os casos. O surgimento de cineastas como Juliana Reis servem de exemplo para aqueles que ainda desacreditam as obras nacionais de menor apelo comercial. Certamente esperaremos pelos próximos trabalhos dessa revelação, com a esperança de que tenham uma repercussão maior em termos de indústria cinematográfica.
 
 
Por Laísa Trojaike

Comentários (1)

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Bob K comentou: O filme DISPAROS retorna ao circuito carioca de salas, em cartaz terça 12/3 no Rio, as 19h50 no Cinemark Botafogo Praia Shopping.

Ocasião perfeita para conferir!
11/03/2013 | Responder