
Talvez no célebre livro Hitchcock / Truffaut: Entrevistas esteja descrita a melhor explicação sobre o artifício de se fazer um bom suspense. Segundo o mestre Alfred Hitchcock, o terror anda de mãos dadas com a surpresa. Um exemplo clássico é uma história em que dois homens conversam em uma sala e em cima de uma mesa está uma caixa... de repente... Boom !!! Uma bomba fez com que tudo fosse pelos ares. Todo a platéia se aterroriza.
Já no caso do suspense, a surpresa é completamente descartada. Os dois personagens conversam na mesma sala. Sobre a mesa, a mesma caixa. Só que desta vez o público sabe que dentro dela está uma bomba programada para explodir em poucos minutos. O tempo passa e à medida que a hora da explosão se aproxima , aumenta o terror da platéia.
Esta simples parábola ilustra muito bem o poder que o suspense tem de segurar a atenção do espectador. Com certeza a diretora americana Kathryn Bigelow tinha total noção disso, ao realizar o tenso filme Guerra ao Terror (The Hurt Locker), usando esse artifício em grande parte do filme.
A fita já começa em ritmo frenético, mesmo antes de apresentar os personagens, mostrando um grupo de soldados americanos tentando desarmar uma bomba no centro de uma cidade iraquiana. O desenvolvimento da sequência não é muito diferente do exemplo dado acima. À medida que o tempo passa e as dificuldades de desarmar a bomba se tornam maiores, o público vai ficando refém da tensão. A sequência termina de forma brilhante, com uma explosão de imensas proporções, fazendo inveja a produções como Matrix ou Rambo.
O roteiro conta a história de dois sargentos da divisão anti-bombas do exército americano, vividos por Jeremy Renner e Anthony Mackie, que lutam diariamente para não ir pelos ares. A história escrita por Mark Boal, se prende muito pouco as lições de moral, patriotismo exagerado ou tentativas de justificar o fiasco que se transformou a guerra do Iraque. Optando por realizar um filme que privilegia cenas tensas do cotidiano, “mundo cão”, dos soldados americanos que exercem a mais ingrata profissão da face da terra. Ao longo da história o roteirista vai empilhando sequências tensas, uma encima da outra, sem deixar que o público pare para respirar.
Kathyn Bigelow, que já havia dirigido filmes como Caçadores de Emoções e K19: The Widowmaker, acertou ao optar por uma captação de imagens em um estilo mais jornalístico, lembrando O Falcão Negro em perigo de Ridley Scott, usando e abusando da câmera na mão e consequentemente desnorteando a platéia nas cenas de ação, transmitindo a mesma confusa sensação vivida pelos soldados de se lutar contra inimigos invisíveis disfarçados de civis.
Guerra do Terror com certeza é o filme que melhor representou o caos em que o Iraque se transformou, optando por um discurso moderado, mais parecido com o de Barack Obama do que o de George W. Bush. Esta posição política fica clara no momento em que os dois protagonistas conversam sobre o nome do campo em que os soldados se concentram, logo no início do filme. Porém, no epílogo temos uma pequena degustação da velha propaganda: Join With Us do Tio Sam. Mesmo assim é de se louvar toda a produção, já que grande parte do filme foi realizado na Jordânia, mais precisamente a 10 km da fronteira com o Iraque, o que demonstra toda a boa vontade dos realizadores de realizar um projeto o mais próximo da realidade possível. Com certeza, se neste mundo estivesse, Hitchcock aprovaria o filme de Kathryn Bigelow.
Saiba mais sobre o filme Guerra ao Terror.
Por Bruno Marques (meunomeebruno@bol.com.br)
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