Histeria

Publicada em 17/11/2012 às 19:06

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Não é uma história do vibrador. Tampouco uma história da histeria. Com um caráter verdadeiramente histórico enfraquecido, afinal, não se trata de um documentário, as entrelinhas são, nesse longa, mais importantes que a trama óbvia.
 
Para um público pouco acostumado com o humor britânico, inteligente, mas que raramente conduz a gargalhadas e perda de fôlego, Histeria vaga entre o monótono, o clichê e a desilusão da promessa de um filme de forte cunho sexual.
 
Claramente uma comédia romântica, a trama não tenta escapar dos clichês, ponto negativo por um lado, mas que, por outro, abre portas para explorar o não tão óbvio utilizando tais clichês como pano de fundo.
 
O apego aos detalhes surge como uma delicada moldura, que ambienta o enredo vitoriano em diversos aspectos (exceto ao utilizar uma fotografia que contradiz àquela mácula cinzenta da Inglaterra pós-revolução industrial). Limpar os pés antes de entrar em um edifício, dentes amarelados e uma quase imperceptível reação a um erro durante a execução de uma obra de Chopin enriquecem a obra tanto quanto todos as minúcias que demonstram o embate entre a velha medicina e a vanguarda científica (lavar as mãos antes de atender um paciente, análise da urina, utilização de sanguessugas, abandono da sangria, existência de germes e, claro, a iminente ignorância dos pacientes pouco ou nada letrados).
 
Embora de forma muito caricata, Histeria não comete o mesmo erro de outros filmes de época. Ao tratar das antigas tecnologias, não as apresenta como se fossem velharias obsoletas, das quais podemos achar graça. As novas descobertas são, nesse contexto, abordadas com a dignidade (e eventuais descrenças) com que eram recebidas na sua época. Por que o telefone não traria a sensação de conectividade que hoje nos traz as redes sociais?
 
Com grande sutileza o filme trata também de distinguir não só a má da boa ciência, mas também a útil. Enquanto um médico retrógrado, que não vê na higiene uma aliada de sua profissão, representa o mal profissional, uma inocente frenóloga pode (ou não) continuar a praticar a sua “ciência”, visto que não prejudica ninguém. E, entre tudo isso, a utilização de jargões técnicos também compõe o conjunto de elementos previsíveis do roteiro, que, por bem inseridos, aliviam a tensão sexual de um filme que constantemente escapa de qualquer estereótipo erótico ou pornô.
 
Nic Ede tem em Histeria um dos seus melhores trabalhos, mas o mérito não é obtido (somente) pelo resgate histórico de vestimentas. A figurinista remove os personagens do comum ao caracterizá-los de acordo com suas personalidades e classes sociais, tendo maior êxito ao construir a estética feminista de Charlotte Dalrymple (Maggie Gyllenhaal). Sem maquiagens excessivas, as imperfeições humanas encontram um grande auxílio na luz sempre devidamente posicionada ou aproveitada, que potencializa a beleza dos atores e, em especial, das mulheres.
 
Numa projeção que não se alimenta de um bom roteiro, com uma direção cuidadosa, mas acanhada e que não se debruça sobre atuações notáveis, Histeria pouco faz mais do que divertir. Uma diversão mais inteligente e não apelativa, diga-se de passagem. Quem estiver procurando uma versão século XIX de American Pie não encontrará perversões, nem mesmo algo “soft”. É uma história de amor com enxertos astutos. E nada mais.
 
 
Por Laísa Trojaike

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