O Hobbit: Uma Jornada Inesperada

Publicada em 24/12/2012 às 17:02

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Em uma sala de cinema foi exibido o O Hobbit – Uma Jornada Inesperada. Não um filme sujo, prosaico, com problemas em todo seu acabamento e cheiro de artificial, nem um desnecessariamente esticado, lento e repetitivo: esse é um Peter Jackson’s  Hobbit, e isso significa, acima de tudo, uma experiência extraordinária.
 
A jornada inesperada começa sua linha de fantasia no começo da trilogia anterior, costurando um bordado de infinitas possibilidades para o passado de Bilbo. No entanto, a emenda é feita de forma coerente e extremamente sutil, ao reaproveitar pequenos subtextos de A Sociedade do Anel e criar, assim, uma unidade entre todas as obras. Logo, sua posição espaço temporal não é deslocada, e apenas acrescenta mais veracidade à gloriosa Terra Média, desenvolvendo seus mitos e relações históricas como se a estudássemos o passado em um livro didático sobre algo o qual lutamos incessantemente contra nossa própria razão para nos convencer de que nunca existiu. 
 
Impressão esta realçada graças ao brilhantismo de Peter Jackson em adaptar J.R.R. Tolkien. Sua agulha é, assim como sua sensibilidade narrativa, fina e sutil, que permuta entre os mínimos furos sem esticá-los, ou abandoná-los, como o caso dos 13 anões, por exemplo, os quais talvez apenas dois aparentem ter importância ligeira na trama, porém somam um número mínimo e condizente com a finalidade da sua Companhia: matar um dragão. Além disso, a precisão de seu pulso se traduz em movimentos de câmera belíssimos, cujas recompensas são planos limpos, dando preferência à nitidez da cena do que a poluição imagética; até mesmo nas cenas de batalha, na qual sobrevoamos e ziguezagueamos o combate, ao invés do confuso corte frenético e câmera tremida.
 
Portanto, a estética é algo de importância vital para o diretor, o qual aposta nos inacreditáveis 48 fps e uso otimista do 3D. A experiência visual é simplesmente absurda devido à beleza sensível de suas imagens, as quais potencializam ainda mais o paradoxal realismo fantástico daquele mundo, principalmente no prelúdio do filme, cujos planos em câmera lenta e dentro da montanha ganham aura própria. Então, mesmo que tal formato não venha a se enquadrar no ideal de outras obras, funciona perfeitamente no universo Tolkiano por já conter em si uma propriedade surreal.
 
Vale ainda ressaltar a ótima trilha e a improvável atuação de Martin Freeman. A primeira, composta por Howard Shore, é capaz de trabalhar com brilhantes variações em cima do mesmo tema, por exemplo, ora de forma melancólica, pelo murmúrio dos anões, ora épica, repleta de metais em uma batalha, e ora desolada, por um gentil clarinete, sem parecer repetitiva. Assim, é reaproveitada e inserida de forma precisa por Peter Jackson, que ainda retorna às vezes ao tema do Condado, da trilogia anterior. Já a segunda, é mérito exclusivo do ator britânico, o qual dá um tom neurótico e principalmente hilário ao jovem Bilbo Bolseiro, inserindo uma potente linha de humor em seu carretel performático. Contudo, único aparente problema do filme se revela, na verdade, preconceito baseado em uma constatação a priori de sua ficha técnica. 
 
Mesmo possuindo cerca de três horas, o universo diegético é tão rico e extenso que a história se alonga pela potência narrativa de seus acontecimentos, e não pela lentidão ou embromação dos mesmos, os quais necessitam claramente de uma continuação, mas funcionam por si ao apresentar e desenvolver bem a trama. Desta forma, é justamente esse caráter introdutório que pode causar certo incomodo no espectador, pelo seu desejo inconcebível de uma continuação imediata, fruto natural da sua ansiedade.
 
O Hobbit – Uma jornada inesperada é, pois, mais do que um filme, uma nova experiência por um dos mundos mais incríveis que só uma imaginação genial poderia criar. Para adaptá-lo, somente outro gênio acompanhado de uma equipe artística formidável, capaz de satisfazer todas as nuancem de sua fantasia. Se deveriam ser dois, três, ou quatro filmes, agora pouco importa; é certo que não há nome mais competente para realizá-los do que Peter Jackson, e em nele deposito toda minha confiança e, mais uma vez, meu muito obrigado.
 
 
Por Lucas Fratini

Comentários (1)

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Jacques Villeneuve comentou: Gente, esse filme é muito bom. Áudio, Roteiro, Efeitos especiais... Sem falar na fotografia, que é impecável ! 26/12/2012 | Responder