Oz: Mágico e Poderoso

Publicada em 11/03/2013 às 23:37

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Oz: Mágico e Poderoso

A maioria das pessoas conhece Sam Raimi pela trilogia Homem-Aranha (aquela que foi estrelada por Tobey Maguire), mas poucos sabem (ou lembram) da presença de Raimi na direção do risível Arraste-me para o Inferno, do clássico (que acaba de ganhar um remake) The Evil Dead - A Morte do Demônio e do menos conhecido Darkman - Vingança Sem Rosto.
 
Esse currículo tem uma importância maior do que se imagina. Trabalhar com super-heróis confere ao diretor a credibilidade de que ele sabe mexer com efeitos visuais. Trabalhar com terror, significa saber utilizar uma linguagem que afastaria Oz da comum massa de filmes infantilóides. Mas será que funcionou como o previsto? Um detalhe pode ser antecipado: Não fosse a boa direção, Oz entraria para o hall dos filmes mais facilmente esquecíveis. Ele escapa desse fatídico fim, mas é por pouco.
 
A direção empolga desde o princípio, optando pela ausência de cores, ou seja, com fotografia em preto e branco contida não em um formato widescreen, mas no padrão 4:3, que, posteriormente, ganharia os formatos e cores do cinema corrente. A passagem do ecrã padrão para o widescreen (mostrado no trailer oficial do longa) faz uma referência belíssima à evolução da tecnologia do cinema.
 
James Franco, como Oz, o Mágico, faz de sua atuação claramente ostensiva uma ferramenta que ajuda a compor o caráter de seu personagem. Espera-se, no entanto, que o desenrolar da trama nos livre daqueles gestos e feições dignos de um mágico no palco e que se revele, então, um Franco mais maduro, comedido e, a nível artístico, sincero. Mas esperança e realidade tendem a não possuir o mesmo ponto final em casos como esse. Somos, por isso, forçados a tragar os trejeitos exagerados e fora de contexto de um ator que, além de não ser tão talentoso, certamente não foi bem dirigido.
 
O mesmo defeito (?) se estende também para a simpática Mila Kunis. Bela, atraente e inocente como Theodora, ela mostra que, se fosse um pouco mais voluptuosa, poderia ser a versão live-action de Jessica Rabbit. Infelizmente, trama adentro (e, se não quiser ler um spoiler, pule para o próximo parágrafo), Kunis é transformada em bruxa má e, sob um belo figurino e maquiagem verde, vemos que a atriz é simplesmente incapaz de parecer má, embora, aos berros, tente demonstrar o contrário.
 
Os espectadores que juntarem os pontos “Disney” e “conto de fadas” não estarão errados ao pensar que se trata de uma fantasia digna do público infantil, mas isso não significa dizer que a criança sentada diante desse filme não sofrerá emoções diversas. Como referido acima, Raimi compreende e domina a linguagem do terror e isso faz com que Oz consiga gerar tensão, medo e, claro, sustos. Eu não ficaria surpresa se visse uma criança chorar assustada após ficar cara a cara com um babuíno monstro ou uma planta carnívora assustadora.
 
E esse tête-à-tête certamente nos remete à importância do 3D nessa obra. Embora jogue muitas coisas na nossa cara, o efeito não tem nisso a sua única preocupação. Ainda que não seja um uso genial como o que vimos em A Invenção de Hugo Cabret, a técnica 3D vem, aqui, reforçar o medo, o susto, a vertigem e a interação com aquele mundo fantástico que seria ainda mais artificial se o diretor não fosse capaz de fazer com que os atores de fato interagissem com o meio.
 
Mas, infelizmente (outra vez), parece que Sam Rami não aprendeu a lidar com cabos de sustentação quando fez Homem-Aranha. As bruxas voam e personagens são carregados por desengonçados símios voadores de um modo que fica claro o uso do aparato técnico. Enquanto o mágico Oz corta os fios que seguram a ajudante de palco durante a levitação para mostrar a magia do seu espetáculo, a direção nos faz acordar do sonho mágico para procurar pelos fios que seguram os atores no ar, forçando-os a movimentos mecânicos e pouco convincentes.
 
Parece-me, ainda, que Oz: Mágico e Poderoso tenta rivalizar com A Invenção de Hugo Cabret no que diz respeito à homenagem que se faz aos primórdios da cinematografia. Enquanto o segundo revive a memória de Georges Méliès, o primeiro tenta resgatar, na marra, a importância do inventor Thomas Alva Edison. Sem querer pender para o academicismo, gostaria de citar um trecho do livro “Gramática do Cinema”, dos franceses Marie-France Briselance e Jean-Claude Morin: “quando Louis Lumière regista a saída das suas fábricas, é efetivamente o primeiro filme do cinematógrafo Lumière, mas, nesta data, Laurie Dickson, o assistente de Thomas Edison, já rodara mais de 75 filmes.” Ora, a homenagem a Edison é, então, digna. Mas, por outro lado, nem os irmãos Lumière, nem Thomas Edison viam no cinema a magia e a arte. Foi Méliès, o mágico e pai dos efeitos especiais, que desenvolveu, na pré-história do cinema, técnicas de ilusão cinematográfica. O que pretendo mostrar com tudo isso? Ao citar Thomas Edison logo no início da película, o roteiro faz uma valiosa homenagem a uma parte da história que costuma sofrer distorções, mas os subsequentes tributos ao gênio americano começam a soar pedantes e inconvenientes, como se o roteiro quisesse, por repetição e insistência, gravar o nome “Thomas Alva Edison” em vários compartimentos da nossa memória.
 
Oz: Mágico e Poderoso é um bom filme, com pontos positivos que o colocam longe de produções fraquíssimas como Branca de Neve e o Caçador e o Alice no País das Maravilhas (2010), embora não consiga se livrar das amarras do cinema comercial que, seja por falta de tempo, seja por imposição dos estúdios, acaba recaindo em infindáveis clichês e desfechos vergonhosos.
 
 
por Laísa Trojaike - @LaisaTrojaike

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