Possessão

Publicada em 31/10/2012 às 15:19

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O mote “Baseado em fatos reais” já foi principal causa do sucesso de diversos filmes de terror. Por muito tempo, só a ideia de parte do relato sobrenatural realmente ter acontecido na vida ordinária, mesmo que de forma claramente adaptada, era capaz de inquietar o canto dos olhos, pois o mal podia existir ali mesmo, atrás da porta do cinema. Contudo, tal recurso hoje já não impressiona devido ao ceticismo incondicional do corajoso espectador acostumado com esse recurso; é preciso algo mais, algo que Possessão tem, mas deixa escapar entre as vírgulas no final da projeção.
 
A história decorre sobre Clyde (Jeffrey Dean Morgan), um pai de duas filhas recém-separado, que faz de tudo para deixá-las felizes, então não dá muita importância quando sua filha mais nova, Em (Natasha Calis), fica obcecada por uma velha caixa de madeira encontrada em um brechó. Entretanto, aos poucos a menina se torna agressiva e quieta, levando seus pais a desconfiarem que seu comportamento tenha alguma relação com seu objeto precioso.
 
O argumento de fazer um terror de cunho judaico é, sem dúvidas, um bom começo. Ora, como é uma cultura milenar e tradicionalmente reclusa, é interessante poder ver os mistérios sob um ponto de vista diferente do clichê cristão ocidental, fugindo do óbvio ao ser apresentado às explicações atípicas que, afinal, são partes integrantes da sua religião, como o Dybbuk, por exemplo, um objeto que realmente existe no judaísmo e possui o mesmo propósito explorado no filme.
 
No entanto, o leve desvio do óbvio não é o bastante, é preciso de algo mais para que o filme funcione, algo que insira de vez o cotidiano do espectador no universo do terror. Para isso, bastou uma única cena que provavelmente não dura mais que dois minutos, um truque montagem que já virou regra em filme históricos, o qual consiste na mistura de imagens reais, encontradas com facilidade na internet, de site populares, como youtube ou vimeo, no universo fictício. A partir desse exato ponto, por mais absurdas que as situações pareçam, serão justificadas pelo simples fato de já ter acontecido mesmo que um pouquinho parecido com alguém. Assim, o longa atinge seu êxtase.
 
Ademais, a direção de Ole Bornedal se mantém bem coesa com sua virada até o terceiro ato. Mesmo que apele para soluções repetidas, como a câmera lenta enquanto o personagem se olha no espelho ou o pesado som exponencial de garfos e pés ritmados para criar uma crescente tensão, ele é feliz com elas, capaz de criar medo e expectativa quando deseja. Até mesmo ao esconder o rosto do mal, o faz com competência, ao distorcer sua imagem por trás de copos e jarros de vidro, por um competente jogo de câmeras.
 
Contudo, todo o terror conquistado nos primeiros atos é destruído, massacrado e completamente aniquilado pelo terceiro ato. Não satisfeitos em criar um terror palpável com o ordinário, a produção simplesmente ignora tudo que foi argumentado anteriormente e cai no pior dos clichês: o verme. O mesmo mal que tinha sido escondido pela direção ganha face e formato, se instalando como um parasita biológico, passível até de raio-x, uma espécie de lombriga demoníaca. É angustiante reconhecer a estupidez daquela que provavelmente deve ter sido pensada como grande revelação da história, a qual não é ao menos coerente com a ideia real de exorcismo apresentada anteriormente.
 
Possessão é, pois, um filme quase: quase assusta, quase prende, quase funciona. Mesmo seguindo pelo caminho correto e apresentando um elemento brilhante para cativar a atenção do público, é impossível engolir seu desfecho espalhafatoso, o qual deixa um gosto amargo de um filme enfadonho. Logo, como é a última impressão sempre a que fica, essa amargura persiste como um verme (ou demônio) por um bom tempo na boca do espectador, que deve exorcizar de vez seu último ato e se lembrar do que fez valer seu ingresso.
 
 
Por Lucas Fratini

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