Super Nada

Publicada em 15/03/2013 às 00:37

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Super Nada
 
Reclama-se, muito comumente, que o nosso cinema nacional não possui identidade.  Por vezes é tragado pelo hollywoodianismo, por vezes, quando tenta se livrar dessa linguagem, acaba por copiar os moldes de outros diretores, sejam eles autorais ou não. Quem é incapaz de fazer o seu próprio cinema, aqui no Brasil, geralmente esquece que nossa realidade gera a nossa identidade.
 
Rubens Rewald, que escreveu Super Nada e dirige o filme ao lado de Rossana Foglia, não esqueceu desse detalhe essencial. Super Nada não tem moldes, pois é cinema genuíno. Ainda que herde da história do cinema a sua linguagem básica, uma obra de verdadeiro ineditismo surge com essa produção.
 
Super Nada mostra São Paulo, cidade-personagem que, admitamos ou não, parece ter vida própria ao influenciar a vida dos seus habitantes. É nesse meio que vive Guto, uma versão realista do fatalismo pessimista que nos faz lembrar do Cândido de Voltaire, uma figura conduzida à constante desilusão de um mundo que parece querer lhe destinar ao fracasso.
 
Marat Descartes tem ganhado um espaço cada vez maior no cenário nacional e, em Super Nada, concede o realismo necessário ao personagem, no que parece ser, até então, o ponto mais alto da sua carreira em frente às câmeras no quesito naturalidade. Seu personagem, Guto, convence e transmite toda uma atmosfera de depressão, tensão, derrotismo e esperança.
 
Focado em uma realidade ora ignorada, ora desconhecida, o filme mostra que a vida de um ator no Brasil e, mais especificamente, em São Paulo, não é somente flashs e autógrafos. Com muita demanda e pouca oferta, desenvolve-se todo um submundo que alimenta e é alimentado por esses muitos sonhadores e poucos artistas.
 
A participação e estreia de Jair Rodrigues como Zeca vem a calhar como crítica e ironia, além de consolo em forma de humor. O palhaço decadente, aqui, não é aquele personagem existencialista do excelente longa do Selton Mello, mas a representação de uma situação real: o ídolo imperfeito, o show que persiste por gerações mesmo quando já esgotado e o espaço que não é renovado, que deixa de fora o sangue novo.
 
Com algumas pontas soltas, que são compensadas pela narrativa fluente da montagem, espaço e personagens se fundem de forma orgânica. Clarissa Kiste é, talvez, o único peão responsável por colocar essa organicidade em xeque com um resíduo de teatralidade em excesso.
 
Super Nada é um filme que, embora cative um público menor, não se torna, por isso, um filme menor. Mais do que uma película fechada em si mesma, Super Nada mostra que existe uma realidade a ser contada, que essa realidade pode ser contada de formas ímpares e que, para isso, temos excelentes contadores de histórias.
 
 
por Laísa Trojaike

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