Publicada em 04/07/2011 às 14:40

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1 País, 1 Filme - Coreia do Sul: Oldboy


Matéria Oldboy Velho Amigo

OBS: Não recomendo a leitura a quem ainda não teve a oportunidade de assistir. Contém spoilers.

Após assistir Oldboy, refleti em silêncio por longos dez minutos. Acabara de assistir uma obra genial ou um filme baseado em argumentos forçados? Seria, o roteiro, particularmente brilhante ou cairia no óbvio da qualidade duvidosa que acomete a maioria dos roteiros de múltiplos autores?

Confesso que me senti observando essa linha sensível na qual o longa se equilibra durante seus cento e vinte minutos de duração e admito: o filme consegue manter a estabilidade da forma mais angustiante possível e, quando tropeça, felizmente cai em uma rede de proteção previamente preparada pela competente e excêntrica direção de Chan-wook Park, pela fotografia com ares melancólicos e com intenção noir de Jeong-hun Jeong, pelas atuações mais que convincentes (principalmente do protagonista Min-sik Choi), pela trilha sonora (inserida em situações inconvenientes, mas muito eficaz) de Yeong-wook Jo (sempre apoiado em Vivaldi) e, sim, pelo eficiente e surpreendente roteiro.

No início, somos apresentados a um Oh Dae-su (Min-sik Choi) bêbado, detido em uma delegacia, anti-social e com ares de infelicidade, no que é uma abertura quase hilária que pode fazer com que os espectadores menos atentos desacreditem o conteúdo da projeção. Porém, a verdade é que se trata de um episódio revelador, onde passamos a conhecer o personagem que estará sempre presente nas próximas duas horas e, no mínimo, por mais dez minutos após.

Depois de liberado, com a ajuda de um amigo, Oh Dae-su é sequestrado misteriosamente e o tratamento dado à cena é precioso, tamanha a importância do fato. Seja pela câmera que se distancia lentamente ou pelo que ela foca, é nesse momento que Chan-wook Park oferece o seu “cartão de visita” com todo primor que lhe cabe.

O anti-herói reaparece em cativeiro, situação que lhe é imposta durante quinze anos. Sem ao menos saber quem lhe sequestrou ou o motivo de tudo, sua única companhia é uma televisão, que serve como mentora, amiga e “amante”. Citando O Conde de Monte Cristo, Oh Dae-su parece confessar que se não fosse aquela companheira (o seu Abade Faria) enlouqueceria planejando sua vingança.

Em uma sequência forte e curiosa, o protagonista é liberto e, ao encontrar o primeiro ser humano e ver a possibilidade de contato depois dos longos anos de reclusão, tem uma reação animalesca, cheirando e acariciando um homem prestes a se suicidar e o forçando a tocar o seu rosto, expondo toda sua carência.

Acostumado à liberdade, Oh Dae-su decide testar se “o treinamento imaginário pode ser posto em prática”, já que durante quinze anos esmurrara a parede. O preciosismo com que tudo é retratado é visível nas suas articulações calejadas e na resposta para a curiosidade, que vem logo em seguida: uma luta torpe, contra alguns deliquentes, que nos passa o cansaço daqueles homens, no que é um plano longo e sem qualquer corte de edição, tornando-se muito mais real do que qualquer cena de luta minunciosamente coreografada.

Com alguns dos minutos mais perturbadores já vistos (imagino, principalmente, as pessoas que têm medo de dentista assistindo), Chan-wook Park é convicto em sua direção, inclusive empregando algum humor (discreto) em meio à violência iminente e eminente pouco abrandada pela trilha sonora sempre erudita e presente nos momentos de maior tensão.
E, aos vinte minutos finais, vemos todas as respostas que o anti-herói procurava sendo expostas por um personagem que em um filme mediano seria chamado de vilão, mas em Oldboy passamos a conhecer um outro e expressivo significado para a alcunha.

Por fim, o pobre Oh Dae-su encontra um destino impensado para si: de toda a sua revolta e desejo de vingança, resta-lhe, somente, a cruel sentença da memória.

É somente ao início dos créditos que a linha sensível na qual o longa se equilibra se parte e ele cai, inteiramente, em um chão duro, mortal e coerente que, durante os dez minutos seguintes, pode despertar alguma decepção, mas, sem demora, é desse descontentamento que a admiração pela obra germina... e é, verdadeiramente, um trabalho extraordinário.

Bons e ruins filmes para nós!

Saiba mais sobre o filme Oldboy.

Por Sihan Felix


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