Publicada em 07/07/2017 às 18:30

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O perfil nonsense (ou esnesnon) de Twin Peaks

 
Foram 17 anos de espera para o retorno de Twin Peaks. A ansiedade daqueles que acompanharam a série era imensa! Com os novos episódios os criadores da atração, David Lynch e Mark Frost, possuem, antes de qualquer coisa, a missão de salvar o lamentável final da série exibida no início da década de 90, oferecendo explicações contundentes para espectadores, fãs e críticos. 
 
É válido citar que em 1992, o filme Twin Peaks: Fire Walk With Me já foi uma tentava explícita de justificar o fracasso do final da série. Entretanto, infelizmente o resultado do longa foi frustrante e durante sua exibição de estreia no Festival de Cannes, as vaias do público evidenciaram a decepção.
 
Voltemos a 2017: as místicas cortinas vermelhas abriram-se novamente. O primeiro episódio, de um total de 18, foi oficialmente lançado no Brasil pela Netflix. De maneira geral, até o momento, considerando os sete episódios disponibilizados por aqui, Twin Peaks permanece com as mesmas essências atmosféricas do passado: o mistério, o desconhecido, e a falta de linearidade. 
 
 
Estes três aspectos citados foram sendo sustentados por grande criatividade e, assim, tornaram-se fundamentais para que a série se eternizasse. Esta mesma tríade, da qual, aliás, emanam outros importantes traços existentes em Twin Peaks, representa e mantém um perfil tipicamente nonsense na narrativa. Esse fato, naturalmente, faz com que o enredo afaste-se do ordinário, do previsível e do senso comum. 
 
Consequentemente, uma vez que é comum que o diferente e o imprevisível desagradem, alguns (minoria) críticos e alguns haters, imediata e constantemente, voltam-se contra a série. Entretanto, a ruptura de Twin Peaks com os padrões de uma produção fílmica, pode, por ventura, proporcionar boas e inúmeras reflexões.
 
Considerando as observações realizadas vamos embarcar agora em uma das várias possíveis reflexões que podem ser feitas em relação ao seriado. Atentemos-nos, especialmente, ao aspecto nonsense que foi citado e que simboliza a falta de sentido, o afastamento do racional e o absurdo que se apresentam e desenham o pano de fundo do enredo. Esse mencionado aspecto tende a fazer com que a série carregue mais questionamentos e dúvidas do que respostas e soluções.
 
 
A história que a sustenta se passa em dois planos diferentes. São duas dimensões de realidade, sendo que numa daquelas o surrealismo permeia formando um mundo traçado pela ausência de regras lógicas, pelo dinamismo de imagens desconexas e por incoerentes surpresas oníricas, sendo que este plano irá gerar um efeito num plano racional, ou seja, em “nosso mundo”, e causará, com o sopro de suas abstrações, uma série de ocorrências logicamente inexplicáveis. 
 
Observemos ainda que o personagem Dale Cooper (Kyle MacLachlan) estava ciente deste fato desde a 1ª temporada. Em vários momentos e em diversas situações demonstra supor, ou talvez até saber, que está lidando com algo desconhecido, cujas origens provem de outra realidade. Por isso ele tende a aplicar métodos investigativos pautados na intuição.
 
Esse embate entre duas dimensões molda um misticismo caracterizado pelo nonsense e esse é um ponto forte de Twin Peaks. Talvez possa ser familiar no cotidiano de muitos indivíduos, pois, ao menos, é preciso admitir, em certos momentos, a vida é também governada pelo nonsense, ou seja, pelo surgimento de uma ocasião ou sentimento absurdo, e caracterizada por uma série de questionamentos para os quais, muitas vezes, faltam explicações e/ou respostas concisas, contundentes ou convincentes. 
 
 
A vida, já dizia Albert Camus (1913-1960) pode ser apenas uma corrida na qual a tendência é buscar significados que não existam. Não que a série careça de significados, mas ocorre que em Twin Peaks a incerteza é o ímpeto que constrói e alavanca a narrativa.
 
Conforme já dito, pode-se perceber um paralelo entre esse aspecto e a vida cotidiana, que é também marcada pelo incerto e na qual o imprevisível muitas vezes surge e acarreta indagações e enigmas que, por vezes, carecem de respostas. 
 
 
A série aborda a tríade: mistério, desconhecido e a falta de linearidade. Dela brota a falta de sentido e assim abre as portas para ocorrências que escapam do óbvio e a existência, de certa forma, também é uma imensidão de ocorrências desconhecidas, de constantes novidades e nem sempre é ou será guiada pelo explícito, pois o homem também vive do hipotético. Talvez a vida seja inclusive, ao menos em determinadas ocasiões e em certos sentidos, uma pergunta pela própria vida.
 
O notável afastamento do roteiro em relação aos clichês é um dos principais pontos positivos do seriado. Enquanto outras séries são elaboradas e executadas através de mesmices, previsibilidades, textos e atos enlatados, Twin Peaks parece se mover sempre para direções incrivelmente contrárias, movendo-se pela intuição e se solidificando em zonas desconhecidas e indeterminadas.
 
 
Por Juliana Vannucchi

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