Os EUA X John Lennon

Publicada em 02/04/2010 às 15:22

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Os Estados Unidos X John Lennon

Nessa semana, enquanto eu lia na uma reportagem sobre a série de homenagens prestadas ao saudoso jornalista Armando Nogueira, na mesma página uma outra matéria sobre novas suspeitas de desvio de dinheiro em Brasília me chamou a atenção. Logo fiz a mim mesmo uma pergunta: que tipo de legado essa classe política pensa em deixar para futuras gerações, se é que isso passa pela cabeça deles? Foi impossível eu não lembrar novamente sobre isso quando vi a abertura do documentário Os EUA X John Lennon (The U.S. Vs. John Lennon – 2006), no qual a imagem do ex-Beatle fica em oposição, como se fosse um confronto ao ex-presidente norte-americano, Richard Nixon.

Com direção e roteiro de David Leaf e John Scheinfeld, o filme, que se estende do período de 1966 a 1976, pouco fala sobre os Beatles, apenas é enfatizado a passagem polêmica em que Lennon declara que a sua banda era mais popular que Jesus Cristo. Sequências mostram as pessoas juntando pilhas e pilhas de quaisquer quinquilharias que dizia respeito aos rapazes de Liverpool e tacando fogo. Para aqueles que pouco sabem a respeito do lado militante do vocalista, irão se deliciar. Depois do casamento com a artista plástica Yoko Ono, ele se especializou em sólidos protestos provocantes contra o desperdício de vidas que acontecia no Vietnã.

Criticas à guerra, injustiça racial e social se tornaram para Lennon muito mais importante do que sua banda e imagens são entrelaçadas a relatos de Tariq Ali (escritor), Carl Bernstein (jornalista), Noam Chomsky (intelectual) e Bob Gruen (fotógrafo), e ainda se juntam ao do fundador dos Panteras Negras, Bobby Seale, e a sua própria ex-mulher, Yoko. Está tudo bem contado, desde o famoso “bed-in for peace” no Hotel Hilton de Amsterdã em 1969 (que parte da imprensa o considerou oportunista) a entrevistas em diversos programas e um show em homenagem ao poeta John Sinclair, que fora preso injustamente por um motivo banal. Como o FBI achava Lennon suspeito, Nixon viu aí uma grande oportunidade de ganhar a reeleição para presidente, camuflar o massacre que seu exército estava levando no Vietnã, e uma solução para melhorar a sua popularidade foi deportar Lennon sobre a desculpa “o problema não é a sua música, mas os seus amigos”.

Infelizmente, vendo o passado notamos que pouca coisa mudou: censuras à liberdade de expressão, ao abuso do poder de governantes e horrores da guerra sem sentido ainda são atuais, a diferença talvez seja a ausência de artistas politizados e realmente engajados como Lennon, possivelmente hoje tenhamos algo, que fica há centenas de quilômetros a boa vontade de Bono Vox, e seu mainstream político.

Voltando a pergunta do início da resenha, enquanto o ícone, mesmo quase três décadas depois de sua morte, tem suas músicas ainda tocadas através do universo e sua memória ainda é uma de energia que por muito tempo ofuscará a história do rock, as proezas de Nixon – que renunciou em 1974 depois do escândalo Watergate – por vezes são temas de filmes (como o recente “Frost/ Nixon”), também é motivo de piada em programas como as da série “Futurama” ou é constantemente lembrado no topo da lista dos piores presidentes dos Estados Unidos, posição essa que George W. Bush fez tanta força para tirá-lo do trono.

Saiba mais sobre o filme Os EUA x John Lennon.

Por Jean Garnier.

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