Crítica | Stranger Things 3 atinge o auge da série

Publicada em 05/07/2019 às 10:17

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Aviso: Esta crítica contém spoilers sobre a terceira temporada. 

Desde que Stranger Things veio ao mundo e se tornou um grande fenômeno nostálgico da cultura pop e audiovisual, todas as suas novas temporadas tem muita expectativa envolvida. A terceira parte não decepciona ao reinventar a fórmula da série e optar por uma trama ainda mais sombria que tem um bom fechamento final e supera a anterior. 

Stranger Things tem uma maneira fixa de contar as suas história em todos os anos: inícios de temporadas são focados nas relações interpessoais dos personagens, já que não há, ainda, um grande mal a ser derrotado. É reintroduzir suas mudanças e comportamentos, o que se torna de extrema importância quando o assunto é adolescentes em constante mudança. Dessa maneira se inicia a nova etapa da série que, por sua vez, se torna um tanto repetitiva em torno dos dramas juvenis. O primeiro episódio demora para engatar a história e se torna uma introdução muito leve regada com intrigas de casal. No entanto, faz sentido em uma narrativa geral e gradual na qual os acontecimentos ficam mais sombrios conforme as coisas são descobertas. O mesmo método é usado para a série inteira, pois cada temporada que chega é mais tenebrosa que a antecedente. 

Apesar dos fatos citados, começa a render muito a partir do segundo episódio quando as teorias dos fãs sobre o Billy finalmente são comprovadas. Não é novidade que a Netflix deu todas as pistas possíveis que ele entraria em contato com o mundo invertido, mas a forma que isso foi realizado realmente impressiona, pois usa o garoto mais violento que é, na verdade, o mais vulnerável e fácil de persuadir. O tal ponto da história também é usado como um gancho para abordar violência familiar desde a temporada de 2017, mostrando que o plot tem extrema importância e justificativas válidas tanto no mundo ficcional, como no real. 

A partir do momento em que o enredo se move mais rápido, já nota-se a separação nítida dos personagens em grupos definidos e a introdução de novos participantes. As escolhas ficaram muito bem encaixadas nas personalidades de cada um, para no fim termos um grande encontro e união de forças que funcionou de forma fluída. A amizade de Eleven e Max passou de rivalidade desnecessária, para algo nutrido com confiança e cooperação feminina. E duas novas personagens se destacaram pela coragem e representação feminina, Erica (Priah Fergunson), que é colocada para cooperar com Dustin por motivos claros de alívio cômico, e Robin (Maya Hawke), a primeira personagem LGBT+ da série que também integra o grupo responsável pela comédia seleta da série.

Entretanto, todas essas novas introduções de personagens e teorias mostram um padrão um pouco problemático na série: ela abre muito seu universo e esquece de fechá-lo. Ao expandir sua mitologia, os roteiristas deixam de lado fatores que ainda merecem explicações, como o passado de Eleven e as motivações dos experimentos em laboratório. Porém, as maiores críticas acabam ficando de lado ao ver que a terceira temporada é um produto completo, com uma história própria e redonda que satisfaz os fãs e telespectadores no final. 

Ao mencionar as novas aberturas na história, é impossível não comentar sobre a nova camada, os russos da União Soviética chegam para justificar uma nova abertura para o mal, além de algumas disputas de poder típicas da época. O que, de fato, foi bem aplicado no contexto histórico da Guerra Fria que reinava no mundo, quando as duas potências disputavam tecnologia e dominância. Porém a rapidez que esses personagens se tornam vilões caricatos é impressionante por transparecer que servem apenas para exaltar e enaltecer o Estados Unidos e seu modelo econômico capitalista, que é mencionado muitas vezes, mas está longe de ser o local de discurso da série. 

Todavia, uma questão que souberam resolver muito bem desde seu princípio são os pontos de virada das temporadas. Cada uma tem um episódio que habita a metade da trama e é o ponto no qual tudo começa a piorar, aprofundar e ficar mais terrível. O padrão segue até que tudo seja solucionado e essa fórmula funciona muito bem para Stranger Things e sua evolução gradual da escuridão que já foi comentada. 

Indo além, Stranger Things é conhecida pela tragédia com seus personagens e em todas as temporadas houve a infeliz morte de alguém importante. Na terceira não seria diferente e o elemento foi o toque especial desse ano. É preciso causar impacto e eles resolveram a questão aos 45 do segundo tempo. Até o momento específico, todos os episódios, apesar de muito bons, deram o sentimento de estar faltando algo a mais. O elemento veio no fim como um plot que encerrou tudo da melhor maneira possível e escolheu o personagem certo para comover o público. Porém, em uma rápida análise da cena pós-créditos do último episódio, é sugerido que um americano está preso no complexo russo. O mesmo chefe que dá as ordens foi o primeiro a chegar no local de explosão da máquina após a tragédia. Será que nosso amado personagem está vivo?

Quanto ao visual, seus esforços em figurinos, cenários e cores continuam impecáveis junto ao seu carro chefe que são as referências dos anos 80 e as dezenas de fan services aplicados na história. Na nova temporada vemos a maior referência em um dos aclamados clássicos do cinema, De Volta para o Futuro (1985) chega para aquecer os corações dos cinéfilos que amam ficção científica. Além disso, o novo shopping Starcourt faz justiça ao tempo histórico da trama, tanto em visual como nas questões de expansão das cidades. Pode-se acompanhar a diferença de Hawkins durante um ano e o que as novas construções causaram no mundo e no comércio local. 

Já na trilha sonora, a série surpreende mais uma vez utilizando grandes músicas que embalaram os anos 80 e sua soundtrack original e encantadora no estilo eletrônico antigo. Muito bem aplicadas, as músicas potencializam os acontecimentos, junto com a grande cereja do bolo, o retorno da canção Heroes, na voz de Peter Gabriel, que já integrou a trilha do quarto episódio da primeira temporada. 

Por outro lado, o principal arco da série é o monstro, que dessa vez voltou muito mais cruel, poderoso e imenso. Dezenas de pessoas morreram e a cidade foi devastada, mas é interessante pensar até quando essa fórmula irá funcionar se houver mais temporadas. Tudo começou com o jovem Billy que foi possuído e sequestrou outros cidadãos da região, porém, no final, a série caiu no clichê usual de usar uma fala emocionante para convencer o hospedeiro a desistir do mundo das trevas. Quase todas as séries de fantasia optam por esse caminho mais humanizado, fácil e previsível. Mas até quando isso dará certo? Não há respostas sobre o que a entidade maligna deseja, mas uma repetição do retorno do mal e a luta do bem para destruí-lo.

No entanto, não desmerece o legado da terceira temporada que cresceu suas personagens femininas, se aprofundou nas relações de amizade e possui um arco completo de acontecimentos arrepiantes e memoráveis. A construção do monstro e as investigações se encontram no momento certo para um grande show final que ocorre nos últimos minutos. Além disso, não pecou no objetivo de se aperfeiçoar no prometido terror da série que vem ficando cada vez mais assustador desde o primeiro ano e conta com atuações incríveis.

É a melhor temporada de todas. Supera a segunda pela sua constância e ousadia, se iguala ao encanto da primeira e une tudo que aprendeu a fazer de melhor para agradar os fãs com a temporada mais completa lançada até agora. 

Em suma, Stranger Things está pronta e poderia terminar hoje. Não por motivos de não possuir potencial para uma nova temporada, mas porque sua mensagem final pareceu um épico, completo, digno e vigoroso encerramento. Entretanto, uma próxima temporada já foi confirmada e resta apenas esperar seu lançamento e a nova trama que virá.

Por Samanta Renck de Carvalho


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Comentários (1)

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Andreza comentou: Essa temporada foi, honestamente, muito melhor do que a anterior. Apesar de como você mesma disse eles sempre deixarem mais perguntas do que resposta, dessa vez entregaram algo realmente empolgante.

Parabéns pela resenha
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