...E o Vento Levou: cinema e literatura

Publicada em 15/12/2015 às 18:16

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...E o Vento Levou: cinema e literatura

Atenção: essa matéria contém spoilers.

Dar início às análises sobre livros adaptados para o cinema falando do grande sucesso mundial ...E o Vento Levou (Gone With the Wind), que mesmo após 76 anos continua sendo de uma importância inegável, seja em suas 801 páginas em letras miúdas do livro ou em seus 241 minutos no cinema, é uma tarefa um tanto quanto pretensiosa. Considero assim pois se trata de uma obra complexa que retrata não só a grande Guerra da Secessão (1861-1865), mas, também, seu âmago, no qual um grande leque de paixões e conflitos internos dos seres humanos são os condutores dos fatos que, por fim, levam muitos à sua ruína e poucos ao seu levante.

O romance foi escrito por Margaret Mitchell (1900-1949), uma americana nascida na Geórgia, o próprio palco da sua narrativa. Esse livro, lançada no ano de 1936, é a sua única obra, tornando-se, rapidamente, um best-seller e tendo a adaptação cinematográfica estreada há pouco tempo depois, em 15 de dezembro de 1939, contando com a participação da própria Margaret na plateia. Mas o sucesso não se conteve. O livro foi vencedor do prêmio Pulitzer e o filme concorreu a treze categorias no Oscar (1940), levando oito estatuetas para casa: Melhor Filme, Melhor Direção (Victor Fleming), Melhor Atriz (Vivien Leigh), Melhor Atriz Coadjuvante (Hattie McDaniel), Melhor Montagem, Melhor Fotografia, Melhor Direção de Arte e Melhor Roteiro Adaptado (Sidney Howard). Um fato curioso (e também triste) do dia da première é que a atriz coadjuvante vencedora foi a primeira artista de origem africana a ser indicada e a receber um Oscar, mas fora impedida de comparecer ao dia da premiação devido às leis racistas vigentes na época.
 
Ainda sobre os curiosos acontecimentos que envolvem essa magistral produção, está a soma gasta para sua produção: 5 milhões de dólares, que comparada aos gastos atuais com a arte cinematográfica e principalmente com os lucros que o filme alcançou (e ainda vem produzindo), torna-se uma quantia irrisória.
 
O complexo papel da protagonista Scarlett O’Hara também deu o que falar, levando a produção a escolher (muito bem!), entre mais de 1400 jovens, a britânica (nascida na Índia) Vivien Leigh, que sofria de distúrbio bipolar (quem sabe esse não a ajudou na criação da sua personagem?), e teve grandes desentendimentos durante as gravações com seu colega de trabalho Clark Gable, intérprete de Rhett Butler que, apesar de ter trabalhado menos horas que Vivien, recebeu somas mais avantajadas em seu pagamento. E, assim, como no romance, o casal viveu intensos sentimentos de amor e ódio durante as filmagens.
 
Partindo para o filme propriamente dito, é possível que o espectador se encontre em um daqueles poucos momentos da vida cinéfila onde não é viável realizar a crítica negativa de que a adaptação deixou muito a desejar com relação à obra escrita. Toda a paixão que Margaret Mitchell fez uso na construção da protagonista Scarlett O’Hara é visível nos olhos, expressão e interpretação geral de Vivien Leigh. O modo canastrão que Clark Gable dá a Rhett Butler (tão idêntico ao seu próprio estilo de ser) faz com que também nós nos apaixonemos por ele, assim como a interpretação das outras personagens, que nos envolvem desde os seus primeiros momentos, mas com uma ressalva: o ator Leslie Howard transformou o papel de Ashley Wilkes em algo superficial e sem grande envolvimento, sem dar a vida necessária e tampouco a loucura de um homem que passou tantos horrores na guerra... sem falar que ele não é um grande galã que justifique o amor desvairado de Scarlett.
 
Logo no tema de abertura, a trilha sonora se mostra inesquecível. Até mesmo aqueles que não assistiram ao filme a reconhecem. As nuances de cores nas imagens, repletas de efeitos de luz e sombra, remete a um saudosismo agradável e eis que é introduzido o Velho Sul, com seus senhores e escravos em plena harmonia (já explicitando que a visão do filme será a visão sulista acerca dos acontecimentos da guerra civil), o qual se deve procurar “apenas nos livros, a civilização que o vento levou”.
 
São muitos os momentos que uma emoção sutil e envolvente é retratada na tela através de cenas ricas e peculiares, tendo sua primeira demonstração no momento em que as crianças soam o sino. De igual beleza é o cantar dos negros em meio ao bombardeio e, principalmente, o grandioso momento em que os mutilados da guerra são mostrados: cena de perspectiva imensa e inteiramente comovente. Além do grande final, com apenas a silhueta de Scarlett vislumbrando Tara (fazenda de sua família) e nos dando a esperança de que dias melhores virão.
 
Retornando ao princípio dos fatos (em meados de 1861) que se estenderão até 1871, após a tomada do poder da Geórgia pelos Democratas (mostrando os preparativos para a guerra civil), tenho, como uma ocasião marcante, o desleixe de Scarlett pela terra. Sendo ela filha de um imigrante irlandês, Gerald O’Hara (Thomas Mitchell), que se tornou rico graças ao amor e dedicação por sua Tara, ela recebe o primeiro ensinamento acerca do único bem que realmente merece nossa luta, do verdadeiro amor ao local onde ela retirará toda sua força, mas que só será sentido e aprendido após grandes dificuldades que ainda não são imaginadas, essas trazidas por uma guerra fundamentada no orgulho e inconsequência de alguns homens.
 
Após a iminência da guerra, a alegria dos homens é incontida e irrefletida, assim como Rhett Butler tenta lhes dizer, pois uma guerra não se vence com gentileza e algodão e, sim, com canhões e munição, material bélico que o norte era detentor. Mas é óbvio que não lhe dão ouvidos e seus comentários são motivos de zombaria, o que não alterará a veracidade da destruição e milhares de mortes sulistas. E é em meio a esses acontecimentos que a convivência de Scarlett e do pretensioso Rhett tem início (ainda na paz dos preparativos pré-guerra). Uma amizade maquilada de despeito começa a brotar no momento em que Rhett vê o repúdio que Scarlett sofre ao se declarar por Ashley, que estava prometido a doce e dedicada Melanie Hamilton (Olivia de Havilland), detentora de uma personalidade tão destoante comparada à intensa e egoísta protagonista.
 
O próximo encontro do casal “diferenciado” se dá após a viuvez de Scarlett, que havia se casado com o irmão de Melanie para tentar afetar Ashley, mas, por ironia do destino, ele veio a falecer antes mesmo de lutar no front, vítima de pneumonia. Scarlett, irritada com seu luto, começa a receber presentes e galanteios de Rhett, que há muito havia se encantado com a força pretensiosa da bela, mas ela ainda só tem olhos para o marido da sua cunhada.
 
Já em meio à perdição do sul na guerra, Scarlett se vê encurralada entre fugir dos bombardeios e ajudar Melanie em seu parto de risco, mostrando a primeira manifestação de sua grande força interior, capaz de ir contra tudo e todos para alcançar seus objetivos, mas, como não poderia faltar, novamente temos a intervenção de Rhett, que rouba uma carroça para poder ajudá-las a retornar à Tara antes que seja tarde demais. Em meio ao trajeto, Rhett tem um acesso de bondade para com os confederados que estão perdendo brutalmente a guerra e abandona as moças para se alistar, gerando assim maior desprezo por parte de Scarlett, que se vê sozinha com a sua empregada Melanie e o pequeno Beau, que acabara de nascer. Mas, apesar das intempéries, nada impede que ela alcance seus objetivos e, então, finalmente consegue voltar para Tara, encontrando sua mãe morta, seu pai louco e suas irmãs doentes, além de toda a devastação que também atingira a terra, saqueada pelos yankees.
 
Após ver o sul desaparecer em uma noite e se defrontar com essa nova vida repleta de dificuldades, uma cena esplêndida é mostrada: o brotar do amor de Scarlett por sua terra, sua força vindo do âmago daquele chão devastado. Ela profere seu próprio destino: “Com Deus por testemunha, não vão me derrotar. Vou sobreviver a isso. E, quando passar, nunca mais sentirei fome! Nem eu, nem minha família. Mesmo que eu minta, roube, trapaceie ou mate, com Deus por testemunha, nunca mais passarei fome!”
 
Em meio à reconstrução de Tara, Scarlett se torna a nova dona da terra após a morte do seu pai em um acidente de cavalo, fazendo com que todos trabalhem arduamente e até cometendo o assassinato de um yankee que tenta lhe roubar seus poucos bens restantes. Assim, ela cumpre a sua promessa e segue seu caminho fazendo o que é necessário, mesmo que isso fira os sentimentos alheios e até mesmo os seus, provando isso ao se casar, pela segunda vez, com o Sr. Keneddy, o pretendente da sua irmã Suellen (Evelyn Keyes), que rapidamente cai em seus encantos e, repetindo a ironia do seu primeiro casamento, Kennedy também morre, mas, dessa vez, assassinado enquanto aplicava uma investida junto à Ku Klux Klan, fazendo com que Scarlett entre em depressão... não por ter sentido amor, mas por estar cansada de lutar. Novamente temos a intervenção de Rhett, que finalmente propõe casamento à Scarlett e ela aceita explicitando que não o ama. Apesar disso, seu casamento segue feliz até o reencontro com Ashley, após a longa lua de mel de viagens e grandes gastos (Rhett havia ficado rico após a guerra), fazendo com que o temperamento ciumento e agressivo de Rhett venha à tona. Scarlett tem uma linda filha, Bonnie Blue Butler (Cammie King), que vem a falecer fatidicamente como seu avô, enquanto montava um pônei, fazendo com que os laços frágeis que ainda uniam seus pais venham a se romper.
 
Com um final não muito diferente do seu desenvolvimento, temos muitas mortes e despedidas. Melanie também falece após a tentativa de uma segunda gravidez e Rhett abandona Scarlett por estar cansado de lutar por seu amor. E, ao fim de tudo, é viável a reflexão sobre o verdadeiro amor que move a história dessa briga de cão e gato entre Rhett Butler e Scarlett O’Hara: dois seres tão intensos e similares que, por vezes, são presas das suas próprias artimanhas e do cruento destino da guerra.
 
Mas, como diz Scarlett ao retornar à Tara: “Amanhã é um novo dia.” Passível de novas lutas e, também, de vitórias.
 
Por Daniele Pendeza - @danielependeza

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Comentários (2)

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Julia Gobbo comentou: Eu sempre quis ver ...E o Vento Levou, mais não consigo encotrar esse filme :( 30/08/2012 | Responder

André Augusto Gorgen comentou: Perfeito resumo do melhor filme que já vi. 15/08/2012 | Responder